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A depressão nossa de cada dia

Comportamento

A depressão nossa de cada dia

Glauber Rogeris tem um olhar social sensível aos problemas e aborda o ponto de refúgio do brasileiro contra as mazelas e problemas cotidianos

Carnaval, é considerada a maior festa popular brasileira e uma das maiores festas populares do mundo.

O Brasil tem a maior taxa de pessoas com depressão na América Latina e uma média que supera os índices mundiais. Dados publicados nesta quinta-feira, 23, pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi lendo essa notícia que ele sentou-se na cadeira e ligou sua TV de tubo, da década de noventa que com muito sacrifício conseguiu comprar, parcelada em 20 vezes em uma grande liquidação de uma rede lojas famosa, para poder assistir aos jogos da copa de 1998.

Sentado na sala de estar de sua casa modesta, no subúrbio de Goiânia, pôs-se a assistir a primeira noite dos desfiles das escolas de samba de São Paulo. Glamour e felicidade estampados nos rostos dos passistas e das baianas que seguem pelo Anhembi sorrindo e cantando os enredos de suas escolas. Luz, cores, paetês, luxo e exibicionismo de gente bonita, são as marcas registradas dessa grande festa popular que afasta temporariamente os problemas da vida cotidiana.

Moradores de rua, embaixo de um viaduto. Foto: Glauber Rogeris

É engraçado… pensa ele mergulhado em seus devaneios de homem médio, concluindo que é melhor o carnaval que o não carnaval. Com o carnaval temos um suspiro de vida, durante 5 ou 6 dias, empurramos nossas contas de lado, e nos esquecemos da: operação lava-jato; dos 12 milhões de desempregados; da criança encontrada morta da última quarta-feira; da rebelião do antigo CEPAIGO; que impôs um toque de recolher na região metropolitana de Goiânia; das pessoas que estão morando embaixo do viaduto da Fued José Seba com a Rua 243; bem próximo ao Campus de Direito da Pontifícia Universidade Católica (que direitos?).

Agora imagine viver sem o carnaval. Seria viver durante 360 dias aproximadamente sob pressão e tristeza. Compensa viver 1,64% do nosso calendário anual gregoriano de alegrias já que 98,36% do ano é repleto de catástrofes e mazelas. Ele sorriu e percebeu porque o brasileiro anda depressivo e isso assusta os outros povos do mundo. É que vendemos através das ondas das antenas de TV, os nossos 1,64% de alegria e jogamos para debaixo do tapete obscuridade, que está bordado com o fio do esquecimento de nossa memória curta, que está estampado pelos desenhos da nossa passividade e descaso os outros 98,36%.

Assim o dia amanhece e hoje é sábado de carnaval, ele pega as chaves do carro, para enfrentar a BR153 e seguir para o interior mais próximo para pular, beber, se divertir até a quarta-feira seguinte, onde as cinzas da alegria, são levadas pelos ventos da realidade.

O modo de vida desse brasileiro, me fez lembrar uma passagem dos quadrinhos memoráveis de Allan Moore, narrados pelo seu personagem mais sensato: Roscharch:

“Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.

O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.” O homem se desfaz em lágrimas. E diz:

“Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”

 

 

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Glauber Rogeris

Pedagogo formado pela UECE e estudante de direito da PUC-GO e Universidade de Coimbra, pelo programa de mobilidade internacional. Amante das belas artes, pesquisador do Filósofo Ernst Bloch (O filósofo da esperança), humanista convicto, visão política de esquerda por influência do Professor e melhor amigo Antônio Fernando de Oliveira (Kaofo), baiano por natureza, geek por vocação e fã do Elvis Presley.

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