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A insensibilidade da vida moderna e o caso Ana Clara

Comportamento

A insensibilidade da vida moderna e o caso Ana Clara

Um analogia entre a história trágica da pequena Ana Clara e o cotidiano de uma capital

“Eu mataria um, para ter uma camisa exclusiva da Louis Vuitton”. E foi ao ouvir essa frase que meus olhos até então imersos na tela do celular, preocupados com horário do ônibus 253 (Aruanã-Centro), voltaram-se para dois rapazes que conversavam a poucos centímetros no ponto de ônibus. Um deles tomava um refrigerante de cola gelado, que me deu até água na boca.

Como todo bom observador, corri meus olhos e percebi que ambos vestiam roupas de marcas (eram quase outdoors ambulantes), desde os tênis às camisetas. O teor da conversa logo me chamou a atenção, já que o rapaz que tomava o refrigerante, além de falar de marcas, reclamava muito da condição degradante da higiene de nossas vias públicas, dizendo ser falta de “classe” a causa do problema.

Ambos se levantam e entram no 018. Até então nada de anormal exceto pelo fato de que o rapaz que reclamava da higiene das vias públicas, deixar sua lata vazia de refrigerante, no assento do ponto de ônibus, que muito provavelmente seria derrubada pelo vento, caindo em via pública, aumentando ainda mais a quantidade de lixo nas ruas, tudo isso a menos de dois metros de uma lata de lixo.

É verdade que o lixo e mato nas vias da capital de Goiás estão demais; ontem mesmo no noticiário local, a polícia civil que investiga o caso do desaparecimento da garotinha Ana Clara, desde a última sexta-feira, pede diante das câmeras que o mato seja roçado pela prefeitura, nas imediações da casa da menina, até para facilitar as buscas. Realmente lamentável.

O que parecia ser um dia normal, com todos os problemas corriqueiros das metrópoles tupiniquins, subitamente muda, e, em um piscar de olhos as pessoas passam a reclamar da nova atualização do WhatsApp que está a travar constantemente. Enquanto o WhatsApp trava, do outro lado da cidade uma família pobre se apega a um mísero fio de esperança, de encontrar a pequena Ana Clara de apenas 7 anos, que desde a última sexta-feira, está desaparecida (acho que já falei, mas não custa nada lembrar).

Não nobre leitor, hoje não é um dia normal, assim como todos os próximos 312 dias que faltam para terminar 2017.

Meia hora depois, o aplicativo de mensagens, deixou de ser noticiada vez e o fim do horário de verão em Goiás, passou a ser o assunto em pauta. Uns a favor, outros, contra e eu logicamente torcendo para o primeiro grupo ganhar. Afinal quem gosta de horário de verão? Enquanto as horas passam em todos os horários possíveis, a pequena Ana Clara continua desaparecida.

Mal me recupero de ouvir o papo sobre o horário verão e a bola da vez é o desemprego. As pessoas preocupadas sobre como fazer para manter suas famílias, já que os chefes e chefas de família, estão vivendo praticamente do seguro desemprego. Um homem vira-se na cadeira da frente e em tom irônico, diz que vai assaltar no sinal, com um ferro na cintura e depois pedir indenização pela lotação na cela. Todos caem na gargalhada e logo em seguida, as frases de efeito surgem:

– Este País, é o País onde o honesto é preso e bandido é solto!

– No Brasil, bandido é que é bom, pai de família não tem vez! Uma senhora vira-se para o primeiro homem e diz:

– Vai roubar no sinal, que vem outro bandido e te rouba! Mais risadas dentro ônibus.

Eu salto do ônibus no ponto do Banana Shopping em clima de descontração e bom humor, porém do outro lado da cidade uma mãe esperançosa, reza aos pés de uma imagem da Virgem Maria, para que sua filha seja encontrada sã e salva.

Tudo correu bem no centro da cidade, resolvi minhas coisas cedo e vou apanhar o ônibus de volta para casa. São 14h35 e meu dia foi produtivo. Sigo feliz para casa, são e salvo e mesmo com toda violência, toda correria, todas as intempéries das nossas metrópoles, um ser humano feliz segue para seu castelo, buscando descanso.

Acha que esse dia terminou? Engano seu…

Nos arredores de Goiânia, a polícia troca tiros com um homem e o fere de morte. O fato ocorreu em uma mata, localizada em Santo Antônio de Goiás. Ele era o principal suspeito nas linhas de investigações da polícia civil, sobre o desaparecimento da pequena Ana Clara, que enfim, foi encontrada, infelizmente sem vida; com vestígios de álcool e gasolina; provavelmente para ocultação de seu pequeno cadáver jogado às margens da GO-462.

Hoje é quarta-feira e mais tarde tem um clássico do futebol na tv e, a depender do resultado, as pessoas falarão do jogo, dos gols marcados, da atuação do juiz. Talvez nem sequer lembrarão que do outro lado da cidade, uma família chora e vela o corpo morto de quem era a alegria da casa. O corpo de Ana Clara, que tinha 7 anos.

Ela… ela era apenas uma criança.

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Glauber Rogeris

Pedagogo formado pela UECE e estudante de direito da PUC-GO e Universidade de Coimbra, pelo programa de mobilidade internacional. Amante das belas artes, pesquisador do Filósofo Ernst Bloch (O filósofo da esperança), humanista convicto, visão política de esquerda por influência do Professor e melhor amigo Antônio Fernando de Oliveira (Kaofo), baiano por natureza, geek por vocação e fã do Elvis Presley.

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