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Dia das Mães: dar presente ou ser presença?

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Dia das Mães: dar presente ou ser presença?

Robson Vieira traz duas personagens para explicar essa história e analisa o significado real da data para as mães e filhos

Um pouco de história sempre faz bem.  A data começou a ser comemorada no século XIX, nos Estados Unidos, por iniciativa de uma jovem ativista chamada Ann Jarvis que lutava pela melhoria de vida das vítimas da Guerra de Secessão. Foi no dia 12 de maio de 1907, dois anos após a morte de sua genitora, que ela criou um memorial para homenageá-la iniciando assim uma campanha para instituição de uma data em comemoração ao dia das mães, facilmente conseguiu essa proeza no seu país de origem, depois, como em um ritual, quase todo o mundo escolheu e comemora essa data no segundo domingo do mês de maio.

No Brasil, foi no ano de 1932 que o então presidente Getúlio Vargas oficializou a data no calendário nacional a acontecer sempre no segundo domingo de maio. Em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro determinou que a data fizesse parte do calendário oficial da Igreja Católica, assim se fez.

Uma mãe pra não se esquecer: Carolina Maria de Jesus, pobre, preta e favelada. Exemplo de mulher e mãe. (Fonte Museu Afro Brasileiro)

Seguindo a história, para nossa curiosidade, com a crescente difusão e comercialização do dia das mães Anna Jarvis afastou-se do movimento, lamentou a criação e lutou para a abolição do feriado. Curioso, não!?

O que era pra ser o dia da celebração do amor à pessoa mais importante da vida de muitos de nós ficou sendo o dia da mercantilização dos sentimentos cultivados entre mães e filhos/as. E o que há de errado com isso? Do ponto de vista comercial nada, pois a data rende lucros e é uma das festas de maior movimentação comercial no país perdendo apenas para o Natal, outra data menos-prezada na sua concepção inicial.

Neste caso, como ficam os menos desprovidos de recursos financeiros? A data deixa de ter significância ou passa a ter outros significados? E como ficam essas mesmas pessoas perante a distância existente entre as grandes lojas, seu bolso e sua mãe? E o amor como sobrevive e onde se encaixa nessa louca dinâmica?

Para superação dessa alienação, o ponto de partida necessário é o reconhecimento de que estamos num processo de valorização monetária de sentimentos, com isso, na maioria das vezes, deixando de reconhecer a essência de momentos tão importantes como esse que se comemora nesse dia.

Recomendo uma pausa antes da entrega do presente, se houver, e que nela possamos pensar: esse presente significa a minha presença na vida da minha mãe ou é uma forma de (re)compensar materialmente aquilo que não consegui por meio do amor, carinho e respeito para com ela? Para sua mãe e pra você o que é mais importante nesse dia? Dar presente ou ser presença? Qual desses verbos possuem mais significado? Esse presente é mesmo significante para ambos ou foi comprado somente em resposta aos apelos em torno dessa data? Penso que essas perguntas poderá nos ajudar a pensar um pouco e refletir sobre valores importantes.

Não sou mãe, nem ei de ser, isso é uma dádiva que somente pessoas mais parecidas com Deus terão o prazer de desfrutar. Mesmo assim, no exercício das minhas observações diárias noto que mais do que presentes há muitas mães querendo apenas o prazer de abraçar o filho e dele receber o carinho já não experimentado há muito tempo. Têm muitos filhos querendo apenas o desejo de poder abraçar sua mãe e dizer o quanto ela é importante e de quanta falta faz, talvez por que não tiveram tempo de dizer isso, outros por que não souberam e outros ainda por que não descobriram como se faz.

Há mães, muitas mães, querendo apenas a dignidade de poder colocar a comida na mesa para os seus filhos/as e há filhos/as, muitos filhos/as arrimo de família, que querem apenas cumprir essa mesma função a ele/a delegada. Existem também pais que na sua sensibilidade nasceram com a dupla missão de ser mãe e que nesse dia terá que explicar ao filho/a o porquê da ausência da sua mãe.

Por incrível que pareça, existem mães que vão celebrar a maior tristeza das suas vidas. É uma tristeza brotada de dentro, do próprio útero e por isso classifico como a maior. Talvez pela pouca coragem de ser mãe ou outras situações pregadas pelo destino, outras pela oportunidade não encontrada nos próprios/as filhos/as e outras ainda por tantos outros motivos dos quais sou incapaz de identificá-los.

E por fim a minha certeza pessoal de que hoje vou poder as rugas acariciar (ela já é uma senhora) olhar profundamente nos olhos da minha mãe e dizer: tu és o meu maior e melhor presente. Sou e sempre serei grato pela sua existência. És um pedaço de mim que habita em outro corpo.

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Robson Vieira

É um jovem santa-mariense licenciado em teatro; bacharel em ciências sociais (com ênfase em políticas públicas); especialista em mídias, arte/educação intermidiática digital e patrimônio, direitos culturais e cidadania e mestrando em antropologia social. Atento aos problemas cotidianos e busca neles, nos problemas, respostas que nem sempre encontra, mas que jamais desistiu de procurar. Robson Vieira por ora é isso, depois nem isso.

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