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Humanizar o ser: possível saída

Comportamento

Humanizar o ser: possível saída

Uma reflexão sobre a intolerância à diversidade sexual no Brasil e as atrocidades que são alimentadas pela falta de respeito com o outro

Às vezes fico me perguntando se de fato somos humanos. E se somos em que momento houve o distanciamento entre ser ‘humano’ e ser ‘humanizado’!? Se é que um dia existiu tal aproximação em escala totalizante.

Características biológicas elevam-nos, todos nós homens, mulheres e também aqueles ou aquelas que não se encaixam nesse binarismo, à condição de ser humano. Outras ‘coisas’ sinalizam nossa condição de humanizados. Etimologicamente humano é uma palavra com origem no latim humanus e designa o que é relativo ao homem como espécie. Já humanização é a ação ou efeito de humanizar, de tornar humano ou mais humano, tornar benévolo, tornar afável.

O ser humano distingue-se dos outros animais por agir com “racionalidade”, sendo considerada condições psicológicas, agem com consciência. Reza a lenda que possuem grande capacidade mental e habilidade para desenvolver utensílios e adquirir conhecimento. Temos o polegar opositor e o telencéfalo altamente desenvolvido.

Se possuímos tudo isso, por que ainda não aprendemos respeitar as diferenças!? É no mínimo curioso a sapiência dos animais que nos ensinam sobre, mesmo rompendo com o que chamamos de instinto. Outro dia vi um cachorro que tinha um gato como amigo, viviam felizes sem jamais terem brigado, achei lindo. Minha vizinha tem uma cachorra que amamentou três gatos cuja mãe tinha morrido num ‘acidente’; na verdade foi envenenada e não por outro da sua espécie. Há tanto outros exemplos, também você deve conhecer algum.

Dandara dos Santos, 42 anos, mulher trans, foi espancada, apedrejada e brutalmente assassinada. O fato aconteceu no início do corrente ano. As cenas registradas ganharam likes nas redes sociais e mídias televisivas. Na sequência foram presos dois suspeitos de terem atirado e ainda três adolescentes que no vídeo aparecem como protagonistas da cena de agressão, um sexto foragido até o tempo em que acompanhei o caso não havia sido localizado. Apesar de trágico o fato narrado é quase uma ‘vitória’, em situações semelhantes ficaria impune. Situação de violência que envolve pessoas invisibilizadas seguem na invisibilidade e ainda em processo de naturalização, pois “o mundo é assim mesmo”, é o dizem numa tentativa de justificar a barbárie.

O caso Dandara não é exceção, infelizmente é regra. Somos o país que mais mata pessoas trans no mundo, não há outro lugar onde esse tipo de violência se acentua com tanta força. Só no ano de 2016 mais de 177 travestis e transsexuais (diferença meramente social e política) foram mortas/os no Brasil. Considerando o ano de 2017 já temos a marca de 33 assassinatos sendo todos eles com resquícios de crueldade. A expectativa de vida para pessoas nessas condições não passa de 35 anos.

Foto: lelandbobbe.com

Expulsa de casa aos 16 anos, Thays Rocha, conhecida de muitos de nós, diz ter saído do interior, Santa Maria da Vitória, por que “lá as pessoas não têm o conhecimento do que é uma pessoa transsexual”. A ignorância tira muito de nós, inclusive o senso de humanidade, pois tende a transformar pessoas em seres repugnantes como no caso dos agressores de Dandara.

Eu, homem, cis, em desconstrução de gênero, nunca sofri qualquer tipo de violência por conta da minha condição sexual. E você, já? Se sua condição for parecida com a minha é quase certo que não. Entre as pessoas trans essa realidade não é a mesma, só por existirem já são potenciais vítimas de violências gratuitas.

Somos uma sociedade que cria categorias para tudo. Categorizar é uma necessidade humana. Fazemos isso com objetivos diversos, quer seja explicar, compreender, diminuir ou exaltar, além de tantas outros. A todo momento somos colocados em caixinhas como se elas conseguissem dar conta de toda nossa diversidade, e assim se criam gavetas para tudo, tanto é que a clássica frase “sair do armário” consegue rapidamente conectar nossa imaginação a um contexto opressor de violência.

Sair ou continuar no armário é uma decisão pessoal que deve ser respeitada. Assim como devem ser respeitados/as aqueles e aquelas que a sua maneira decidiram tomar tal decisão. Gosto da indagação do médico Drauzio Varella, acho que nos ajuda a entender muita coisa: “eu vou te perguntar uma coisa: Que diferença faz pra você, pra sua vida pessoal, se o seu vizinho dorme com outro homem? Se a sua vizinha é apaixonada pela colega de escritório? Que diferença faz pra você? Se faz diferença, procure um psiquiatra! Você não está legal!”

Na maioria das vezes nem é de psiquiatria que precisamos, basta a coragem de romper com a ignorância enraizada num sistema conjunctural complexo que serve para perpetuar preconceitos. A melhor forma de exterminar a ignorância é através do estudo. As pessoas trans não tem a obrigação de nos alfabetizar para que possamos aceitar e compreender a complexidade que compõem os conceitos de gênero e sexualidade. Sou eu que tenho que buscar romper minhas limitações. Aqui estou falando de questões políticas e sociais, por tanto não é sobre ‘moral’ e ‘bons costumes’, conceitos extremamente relativos.

No processo de classificação sempre corrermos o risco de deixar alguns, ou tantos de fora, onde colocá-los/as? Quase sempre os empurramos para margem, principalmente se forem aqueles/as que por algum motivo são ‘diferentes’ de nós ou não concordam com aquilo que pensamos e dizemos viver.

Diante dessa necessidade colonial fiquei pensando na humanidade (nos seres humanos, incluindo eu) a colocamos na caixinha do ‘humano’ ou dos ‘humanizados’!? Penso que essa categorização ajuda-nos a entender muitas coisas que tem acontecido em nosso tempo. Classifico aqui não com a ideia firmada de que a vida seja dessa forma, acredito mesmo é que algumas muros divisórios criados por nós precisam urgentemente cair.

No clássico livro “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas” a obra mais conhecida de Charles Lutwidge Dodgson, que assina como Lewis Carroll, existe um personagem face da intolerância. A rainha de copas quer a todo custo a padronização das rosas deixando todas vermelhas, as que se negam a ordem é clara: CORTEM LHE A CABEÇA! Parece que nossa humanidade, no que tange a aceitação das diferenças sexuais, tem se inspirando com grande vigor nessa personagem.

Diferença ao meu ver é a mais bela característica da humanidade, ela se torna morte a medida em que não conseguimos compreender e respeitar o/a outro como ele/ela é.

Ser ‘humano’ ou ‘humanizado’ é uma condição pessoal sobre a qual cabe a cada um de nós escolher, certo estou de que podemos ajudar outros nessas escolhas. Se eu pudesse dar uma dica, para o bem da humanidade te diria: ESCOLHA SER UM HUMANO HUMANIZADO.

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Robson Vieira

É um jovem santa-mariense licenciado em teatro, bacharel em ciências sociais (com ênfase em políticas públicas), especialista em mídias, mestrando em antropologia social e doutor em inquietação. Atento aos problemas cotidianos e busca neles, nos problemas, respostas que nem sempre encontra, mas que jamais desistiu de procurar. Robson Vieira por ora é isso, depois nem isso.

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