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Minha visão de Goiânia após voltar de Portugal

Comportamento

Minha visão de Goiânia após voltar de Portugal

A crônica é do jovem santa-mariense, estudante de Direito em Goiânia, Glauber Rogeris

13 de fevereiro de 2017, o despertador soa e sem sucesso tento acordar e me acostumar com o fuso horário do Brasil. Há 4 dias estava eu na Europa e a vida lá parecia mais fácil e organizada, tudo parecia funcionar bem.

7:30, saio de casa e ando pelas ruas de Goiânia, o lixo toma conta das vias públicas; um homem joga uma garrafa pet pela janela do carro, aumentando ainda mais a quantidade de lixo que possivelmente irá entupir os bueiros. Um carro de polícia se aproxima e não sei se fico seguro ou com medo, afinal de contas o histórico de nossos homens da lei não é lá dos melhores (pesquise o caso Amarildo e tantos outros).

Tudo acontece numa velocidade insana e ao mesmo mesmo numa lerdeza surreal

As pessoas transitam apressadas empurrando umas às outras, saindo de um lugar qualquer e indo a lugar nenhum. Uma senhora reclama do atendimento do posto de saúde do seu bairro. Outra senhora reclama do transporte público. Logo ao lado, um rapaz aproxima-se de bicicleta e em um ato de rapinagem, toma de assalto a bolsa de uma transeunte, que se preocupava com o tempo (as nuvens anunciavam chuva na capital goiana).

7:45 – chego ao ponto mais próximo e entro no 002. O aspecto do ônibus reflete a nossa eficiente administração governamental (sujo, corrompido e fétido). Sento-me ao fundo do “busão” e tenho a visão do motorista discutindo com um rapaz que pulou a catraca e vai viajar sem pagar; aliás, sua passagem será rateada por todos os trabalhadores que passaram e os que ainda vão passar por aquela catraca. Logo em seguida uma mãe brada com o filho de aproximadamente 4 anos de idade, para que o mesmo passe por debaixo da dita catraca, ao invés de solicitar a carteira infantil do mesmo (não paga nada), acho que evitaria que o pequenino quando crescesse torna-se um pulador de catracas.

8:10 – passamos pela Avenida Goiás e um idoso sofreu um infarto em meio ao caos urbano e morreu ali mesmo nas encostas do canteiro central. Dois policiais isolam a área e nem sequer cobrem o féretro. As filhas do defunto chegam logo em seguida e lamentam a morte de seu genitor e chefe de família; uma delas puxa os cabelos aos prantos (ele parecia ser o arrimo da família).

8:30 –  chego a Universidade de Direito e pergunto-me: que direito? Os corredores da Universidade estão repletos de caras novas; jovens esperançosos e muitos, com a perspectiva linda de mudar a realidade vigente (quão hercúlea tarefa). Na sala de aula, deparo-me com um professor tentando explicar sua metodologia e negociar a atenção dos alunos, que impõe ao mesmo, como ele irá ministrar sua disciplina. Bem diferente com o ensino que estava já a me acostumar na Universidade Coimbra, onde a metodologia é a que o professor achar mais conveniente e o aluno que se adeque.

12:10 – saio mais cedo e retorno para minha casa, passo novamente pela Avenida Goiás e o corpo ainda se encontra estendido no chão, descoberto, e, como desgraça pouca é nada, começa a chover e molhar o corpo morto do idoso, mas agora já não faz a menor diferença, ele já não vive no Brasil, o pais do caos, onde o absurdo é normalmente aceito como cotidiano.

Amanhã será outro dia como esse, um dia absolutamente normal.

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Glauber Rogeris

Pedagogo formado pela UECE e estudante de direito da PUC-GO e Universidade de Coimbra, pelo programa de mobilidade internacional. Amante das belas artes, pesquisador do Filósofo Ernst Bloch (O filósofo da esperança), humanista convicto, visão política de esquerda por influência do Professor e melhor amigo Antônio Fernando de Oliveira (Kaofo), baiano por natureza, geek por vocação e fã do Elvis Presley.

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