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Santa Maria da Vitória: Entre a falta e a sobra

Cidadania

Santa Maria da Vitória: Entre a falta e a sobra

A verdade é que onde falta políticas publicas que atenda a população sempre haverá sobra de violência em Santa Maria da Vitória.

Santa Maria da Vitória, outubro de 2015, bairro Sambaíba, proximidades do Hospital Municipal Drº José Borba, Gabriel Oliveira, 16 anos, estudante, foi alvejado com arma de fogo durante tentativa de assalto enquanto voltava de uma festa com um amigo. Após passar 5 dias na unidade de tratamento intensivo do Hospital do Oeste em Barreiras, veio a óbito. O amigo não teve ferimentos físicos e sobreviveu.

Santa Maria da Vitória, 10 de julho de 2016, no centro da cidade, por volta das 16h, na Praça da Bandeira, um estabelecimento comercial foi assaltado por indivíduos a mão armada. O caixa do local foi saqueado, celulares de funcionários e clientes foram levados. Não houve mortes.

Santa Maria da Vitória, 10 de julho de 2016, por volta das 19h, um jovem foi assaltado a mão armada na frente da própria casa localizada no centro da cidade enquanto retornava de um passeio, o celular foi levado. Apesar do susto não houve morte.

Santa Maria da Vitória, 11 de julho de 2016, por volta das 9h, uma mulher é assaltada a mão armada dentro do seu local de trabalho e teve seu celular levado. O fato aconteceu nas proximidades do Fórum Desembargador Joaquim Laranjeira, não ouve mortes.

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Foto: PIXABAY

Santa Maria da Vitória, 12 de julho de 2016, por volta das 21 h, Vinicius Mendes, estudante universitário, 19 anos, trabalhador, assassinado com arma de fogo após ser vítima de tentativa de assalto no centro de Santa Maria da Vitória. Vinicius pilotava uma moto, na garupa estava sua namorada. O jovem foi abordado, tentou estabelecer dialogo com os bandidos não consegui e foi baleado morrendo no local. A namorada do Vinicius foi testemunha ocular, o resto da população se fez testemunha ‘assistindo’ as cenas captadas por câmeras de segurança de um comércio vizinho ao local do crime. As cenas desse triste filme agora ocupam as redes sociais e chocam àqueles/as que dentro de si carregam sentimento de humanidade.

Em todos esses casos citados há muito em comum: o cenário dos crimes, as formas de abordagens, o perfil dos meliantes, a impotência das vítimas, a ação covarde, o uso de arma de fogo e, em dois deles, duas vidas de jovens foram ceifadas, ambos aproximadamente na mesma idade.

Num momento como esse em que passa nossa cidade a dor é compartilhada e a comoção se torna um sentimento comum. Amigos ou conhecidos, como seres humanos, não há quem não se sinta tocado por tais acontecimentos, não há quem em algum momento não pense: “podia ter sido eu”. Mas não, não fui eu nem você, ainda estamos vivos para que possamos ver essas tragédias ocorridas e outras que, caso atitudes não sejam tomadas a curto e longo prazo, irão acontecer e ai sim o próximo poderá ser eu, você ou alguém de nossas famílias. Em minha fala não há nada de vidência ou mau presságio, há o obvio estampado.

Nesse momento em que medo e comoção se misturam temos buscar fazer uma leitura – que embora complexa é necessária – desses casos que correlacionados dizem muito mais do que vistos separadamente. A violência de fato, sobre tudo nos dias atuais, é um ‘fenômeno’ que tem acometido várias cidades e como vírus se espalha em velocidades assustadoras. A violência é fabricada no seio da nossa sociedade desigual e mantida pelas formas de fazer e conceber políticas e, nessa lógica, em alguma medida, também somos co-autores da violência ou, no mínimo, mantedores de práticas políticas que corroboram para proliferação da violência em suas mais diversas formas. Assinamos essa culpa quando elegemos corruptos e corruptores para cargos públicos.

Pensar os fatos insoladamente faz com que tenhamos conclusões pouco acertadas, por isso é preciso uma leitura holística. É certo que temos um país falho com gigantesco deficit social, com um altos índices de violência e com modelos de ‘combate’ que tem demostrado ser pouco eficazes. A presença da polícia nas ruas- aqui penso na polícia cidadã -, muito embora necessária e importante, não é a única forma de fazer políticas de segurança. É também preciso investir em acesso a bens culturais, esporte, lazer, inclusão e permanência do jovem na escola/universidade, oferta de serviços públicos de qualidade, programas de geração de empregos e renda sobre tudo voltado especificamente aos jovens, dentre tantas outras possibilidades que ofereçam dignidade à pessoa humana. Se não há investimentos nessas áreas significa dizer que temos um governo que se faz produtor de violência.

O cenário de todos os crimes anteriormente citados, Santa Maria da Vitória, segundo dados coletados no site da Secretária de Segurança Pública do estado da Bahia, considerando somente o primeiro trimestre de 2016, já registrou 3 homicídios dolosos; 1 tentativa de homicídio; 3 casos de estupros; 4 furtos de veículos. Nossa cidade se destaca entre as mais violentas do Oeste Baiano. Para concepção desses dados considerou-se apenas os casos em que foram registrados BO (Boletim de Ocorrência) e quanto aos atos de violência silenciados? Que dizer da violência simbólica? E sobre a violência psicológica não registradas pelos BO’s? Tem noção do cenário que estamos expostos? Sei que esses dados metem medo, mas quem sabe sirva para despertar nossa gestão da inércia.

Gabriel Oliveira virou percentual nos dados de 2015.

Vinicius Mendes vai passar a figurar entre os números de 2016.

É a triste matemática na qual vidas humanas se transformam em números.

Constitucionalmente o poder da polícia de fato cabe ao estado, porém, disse e repito, politicas de segurança não se faz somente com o uso da força. Fundamental é considerar as articulações e transversalidades. Pergunto: considerando os últimos anos, qual política implementada pelo governo municipal tem como foco a juventude? Quais programas ou projetos foram concebidos visando criar espaços de valorização para os jovens da cidade e do campo? Quais políticas públicas com foco na cultura, esporte e lazer foram geridas pelo município? Qual o lugar da juventude nesse governo? A gestão publica mostra suas prioridades na sua forma de governar e é claro que, nossa juventude nunca foi prioridade, talvez por isso matam-se e morrem.

Os autores de todos esses crimes devem ser culpados e condenados no rigor da lei – se houver rigor -, mas isso não basta nem evitará que outros casos semelhantes possam acontecer. Precisamos cuidar para que a nossa fábrica de marginais não continue a ser tão produtiva, pois ela não é lucrativa, muito pelo contrário, causa prejuízos e leva vidas produtivas. A medicina nos ensina que para acontecer a cura precisamos cuidar da causa da doença e não somente dos sintomas. É preciso cortar o mal pela raiz e de forma sistemática. Devemos aplicar essa metodologia no combate a violência.

Pela memoria desses dois jovens é que precisamos cuidar de nossa juventude. Pelo respeito de suas almas não podemos permitir que outros sigam por caminhos tortuosos ou tenham suas vidas ceifadas. Mas pra isso é preciso coragem, primeiro assumindo os erros, depois propondo novos caminhos e por fim, governo e cidadãos fazendo sua parte conseguiremos uma Santa Maria da Vitória menos violenta.

No rito cristão o luto é uma forma forte de demonstrar sentimentos, mas por outro lado é mais do que necessário que façamos desse luto verbo, pois diante do que vem se tornando nossa cidade não podemos somente vestir de preto, não podemos somente fazer caminhadas de paz e nem tão pouco acreditar que ‘foi só uma fatalidade do destino’. Não, não foi fatalidade, foi ausência.

A verdade é que onde falta políticas publicas que atenda a população sempre haverá sobra de violência.

À família de Vinicius minha solidariedade.

Vinicius Mendes!
PRESENTE!

Gabriel Oliveira!
PRESENTE!

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Robson Vieira

É um jovem santa-mariense licenciado em teatro; bacharel em ciências sociais (com ênfase em políticas públicas); especialista em mídias, arte/educação intermidiática digital e patrimônio, direitos culturais e cidadania e mestrando em antropologia social. Atento aos problemas cotidianos e busca neles, nos problemas, respostas que nem sempre encontra, mas que jamais desistiu de procurar. Robson Vieira por ora é isso, depois nem isso.

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